A iminente catástrofe nuclear e os sonhos de Kurosawa
Monte Fuji em vermelho, um dos mais aterrorizantes sonhos de Akira Kurosawa soa, agora, premonitório.
No filme, o erro humano acarreta na explosão de reatores nucleares; na vida real, a causa é natural, um terremoto e suas tsunamis. As causas diferem, as consequências são as mesmas, destrutivas.
Kurosawa, sempre atento aos vícios humanos, mostra o resultado da imprudência e inconsequência do homem e o terrível acidente nuclear revela nossa vulnerabilidade. As ondas que invadiram o solo japonês e o iminente desastre atômico em Fukushima reafirmam nossa insignificância.
O filme, e não apenas o conto em si, é comovente em seu humanismo e contundente em suas críticas, celebra a vida, a arte e a natureza, escancara a ganância, a estupidez e a pequenez humanas e, neste momento trágico, em vias de ocorrer uma catástrofe nuclear, aumenta sua expressividade por estreitar ainda mais seus laços com o real, para além da ficção, além dos sonhos.
Esta foi para mim desde a primeira vez em que a vi uma película genial, assombrosa e encantadora. Agora, por mais triste que isso seja, um sonho que põe um dos símbolos nipônicos envolto numa fumaça colorida e tóxica ganha contornos angustiantemente reais e Sonhos já não é visto com o mesmo olhar de outras sessões.
A genialidade de Kurosawa se torna mais eloquente e aflitiva.
Monte Fuji em vermelho é um dos Sonhos, de Akira Kurosawa, filme de 1990. A imagem que ilustra o post é uma das cenas do conto.
Os 70 anos de um filme genial
Por trás de personagens ingênuos e carismáticos, em comédias que levam qualquer espectador ao riso, Chaplin sempre foi contundente ao explicitar problemas da sociedade à época. Foi assim, por exemplo, no clássico Em busca de ouro, que expõe a distinção de classes e a busca desenfreada por dinheiro e lucro do sistema capitalista, e em Tempos modernos, crítica clara à substituição do homem pela máquina e à difícil situação da classe operária. O grande ditador, outra obra-prima de Charles Chaplin, também trouxe à tona ao grande público um cenário obscuro que se consolidava na Europa e ameaçava a todos, e Chaplin o fez simultaneamente à ocorrência dos próprios fatos. No último dia 15, este filme completou 70 anos de sua premiere, e como homenagem a uma das mais contundentes e corajosas obras do cinema relembro O grande ditador.
O filme começa a ser contado a partir da Primeira Guerra Mundial. Um cadete do exército, interpretado por Chaplin, de um país fictício chamado Tomânia perde a memória após seu avião colidir com uma árvore. Passa os vinte anos seguintes num hospital e durante o tempo que fica internado mudanças ocorrem no seu país; a principal delas: Adenoid Hynkel, protagonizado por Chaplin também, o grande ditador que governa a Tomânia começa a perseguir os judeus. O cadete, ainda com amnésia, retorna à sua casa e retoma sua profissão junto a uma barbearia no gueto judeu, entretanto alheio ao ambiente tenso que permeia a nação tomaniana. O barbeiro observa e sofre com a perseguição aos judeus enquanto Hynkel sonha com um mundo sob seu comando. Isso até o ponto em que o barbeiro é acidentalmente confundido com o ditador, devido a incrível semelhança física entre ambos, “assume” o posto do governante e é levado para a capital da Tomânia para proferir o discurso da vitória e reiterar e engrandecer os feitos e ideias do verdadeiro ditador, contudo o barbeiro expõe, ao contrário, ideias antimilitaristas e democráticas em seu discurso.
Chaplin conseguiu fazer um grande filme de um dos capítulos mais sombrios da história do homem sem abdicar de seu humor característico, mas nem por isso deixou de adotar uma postura contrária à situação que se instaurava no mundo, sobretudo na Alemanha, naquele momento. O grande ditador é uma crítica feroz ao ódio e à intolerância, e também à ebriedade que o poder pode causar, a qual é magistralmente traduzida para a antológica cena do globo, onde o ditador Hynkel, fascinado e deslumbrado com a ideia de dominar o mundo, brinca e dança suavemente com um balão de ar em forma de globo terrestre até que o mesmo estoura, revelando a vulnerabilidade do planeta, e leva o ditador às lágrimas.
Chaplin começou a realizar o filme logo quando soube da invasão da Polônia pela Alemanha e consequentemente do início da Segunda Guerra Mundial. E lançou O grande ditador em 1940. Foi o filme de Chaplin que escancarou e condenou o que acontecia na Europa antes mesmo do próprio governo norte-americano assumir uma posição mais concreta (os EUA só entrariam na guerra após o ataque japonês à base de Pearl Harbor, já no fim de 1941).
A genialidade de Chaplin em O grande ditador não se resume apenas ao tom crítico e à postura política que marcaram o filme, o artista foi genial também cinematograficamente. Até então, 1940, Chaplin nunca tinha usado falas, diálogos em seus filmes, apesar do cinema falado já ser comum à época. Seus grandes sucessos foram filmados na era muda do cinema e o diretor resistia a fazer filmes falados, já que para Chaplin a imagem se explicava por si só. Entretanto, ao realizar O grande ditador ele abriu mão de fazer um filme mudo e fez seu primeiro filme com falas. Mesmo assim, Chaplin conservou as características de seu cinema mudo, grande parte das cenas não tem falas, mas quando tem, elas estão ali para complementar a imagem na construção do filme, sobretudo no discurso final. Charles Chaplin manteve seus personagens mudos por décadas, até mesmo quando já lhes era possível falar, porém quando lhes deu voz o fez de maneira soberba com um discurso avesso à ganância, à intolerância, ao ódio e que clamava pela união dos povos e pela indistinção de raças, e assim permitiu que o cinema ostentasse um dos momentos mais humanistas e antológicos de sua história.
Our knowledge has made us cynical; our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little.” – Charles Chaplin
Filmes com crianças
Para comemorar o dia das crianças, fiz um seleção de 12 filmes que gosto relacionados à infância de alguma maneira. Não são filmes necessariamente infantis, longe disso, mas todos tem crianças ou adolescentes como personagens centrais de suas histórias. Vamos à lista!
Filhos do Paraíso (1997)
O pequeno Ali perde o único par de sapatos da sua irmã e os dois decidem não contar aos pais a perda, já que são de uma família muito pobre e por temer um castigo. Sendo assim, passam a compartilhar o único par de sapatos do garoto para irem à escola, já que estudam em horários diferentes. Uma possibilidade de recuperar o calçado perdido surge numa espécie de maratona escolar em que um dos prêmios é exatamente um par de calçados.
Devo assistir porque… a simplicidade da história revela toda a grandeza do filme. Sem se prender a estereótipos ou melodramas nojentos, vemos um singelo exemplo de companheirismo, determinação e superação, além da crítica social também presente. Esse filme concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com A Vida é Bela e Central do Brasil, que curiosamente também retratam a infância, e, em minha opinião, é o melhor dos três, e olha que os outros dois filmes já são bem bons. Se você assistir Filhos do Paraíso e gostar, recomendo outros dois filmes que também possuem crianças como protagonistas de suas histórias e também são iranianos: O Balão Branco e A Maçã.
Título Original: Bacheha-Ye Aseman
Diretor: Majid Majidi
Onde Vivem os Monstros (2009)
Max é um garoto mimado que desobedece a mãe e é posto de castigo. É aí que sua imaginação o leva a um reino desconhecido habitado por monstros onde ele é o rei.
Devo assistir porque… essa é uma das raras adaptações de livros que renderam bons filmes; porque o filme é muito bem feito visualmente, e os monstros são alguns dos personagens mais melancólicos e, ao mesmo tempo, carismáticos da história do cinema, destaque para o bode e para o touro que nunca fala nada. Para quem gostar do filme, recomendo ler o livro que consegue ser ainda melhor, mesmo tendo no máximo umas 30 páginas.
Título Original: Where the Wild Things Are
Diretor: Spike Jonze
Os Incompreendidos (1959)
O filme retrata o início da adolescência de Antoine Doinel, personagem que apareceria em outros filmes em diferentes etapas da sua vida e sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud. Doinel é ignorado pelos pais, tem problemas na escola e comete pequenos furtos. Seu escape está nos textos de Balzac e nos filmes que vê no cinema.
Devo assistir porque… é um filme seminal da Nouvelle Vague e o primeiro de François Truffaut, que nunca negou o seu caráter autobiográfico. O filme, apesar de não ser uma história feliz, é agradabilíssimo e possui momentos mágicos como o teatro de fantoches para as crianças. Além disso, a cena final, sobretudo o frame final, é inesquecível, a mistura de liberdade e abandono eternizou o olhar de Doinel/Léaud.
Título Original: Les Quatre Cents Coups
Diretor: François Truffaut
A Viagem de Chihiro (2001)
Durante a mudança para sua nova casa, Chihiro lamenta a opção dos pais e a nova etapa de sua vida. O pai se perde no meio do caminho e para em frente a um túnel guardado por uma estátua. A garota e os pais entram no túnel e Chihiro inicia aí uma jornada fantástica em um mundo onde seres humanos não são aceitos. Tentar explicar o filma a partir daí é perda de tempo, assista.
Devo assistir porque… esta foi a primeira animação a ganhar o Urso de Ouro em Berlim, além de ganhar a estatueta do Oscar e porque as animações de Miyazaki são belíssima e todas feitas à mão. E vale ver também porque além do deleite visual a história é fantástica.
Título Original: Sen to Chihiro no Kamikakushi
Diretor: Hayao Miyazaki
Para Sempre Lilya (2002)
Em algum lugar da União Soviética, Lilya, uma garota de 16 anos, é abandonada pela mãe, que parte com o namorado para os EUA. Sem dinheiro, ela se vê obrigada a mudar para um apartamento (ainda) mais modesto num subúrbio pobre e a, mais tarde, se prostituir. Durante todo esse tempo, tem apenas o carinho e companhia do amigo mais novo, Volodya, também negligenciado por seus pais. É então que conhece e se envolve com um rapaz que promete uma vida melhor num outro país.
Devo assistir porque… este é um filme arrebatador, é impossível passar ileso ao longa. Um retrato desolador da juventude num país ainda perdido após uma longa e dolorosa mudança. Assista também para descobrir o trabalho de Lukas Moodysson, diretor da nova geração sueca, apontado por nada mais, nada menos que Ingmar Bergman como um dos grandes nomes do cinema contemporâneo.
Título Original: Lilja 4-Ever
Diretor: Lukas Moodysson
Ladrões de Bicicleta (1948)
Trabalhador humilde consegue um novo emprego, mas tem sua bicicleta roubada e sem ela não pode trabalhar. Ele parte então ao lado de seu pequeno filho em busca da bicicleta roubada e ao não encontrá-la, age de maneira desesperada para poder trabalhar novamente.
Devo assistir porque… o filme é um marco do Neo-Realismo Italiano, demonstra fielmente a situação da Itália após a devastação da Segunda Guerra Mundial e é uma das histórias mais comoventes já contadas no cinema.
Título Original: Ladri di Biciclette
Diretor: Vittorio De Sica
O Retorno (2003)
Um filme sobre um reencontro inesperado. Um pai, ausente há 12 anos e sem jamais ter dado explicações sobre sua partida, retorna ao lar e decide fazer uma viagem com seus dois filhos. Partem, então, para um lugar desconhecido e iniciam uma convivência que despertará remorsos, dúvidas, incertezas e sentimentos confusos, desde o afeto e o carinho em reencontrar (conhecer) alguém tão importante e a estranheza em desconhecê-lo completamente.
Devo assistir porque… além do filme ter uma fotografia fantástica, o ressentimento e a incerteza sempre presentes no reencontro tornam o filme, de certa forma, perturbador e o final, ambíguo, permite diferentes interpretações e respostas (ou não) à ausência e o retorno do pai.
Título Original: Vozvrashcheniye
Diretor: Andrey Zvyagintsev
A Vida é Bela (1997)
Durante a Segunda Guerra Mundial, pai e filho judeus são levados para um campo de concentração. Para blindar o filho do terror daquele momento, o pai diz que estão participando de uma grande gincana e que o vencedor ganhará um tanque de guerra e, por isso, precisam trabalhar tanto.
Devo assistir porque… o tom de fábula que envolve o filme consegue tratar com extrema leveza um tema tão sombrio quanto este. E porque o fim é inesquecível.
Título Original: La Vita è Bella
Diretor: Roberto Benigni
Ser e Ter (2002)
Um documentário que acompanha estudantes de uma escola infantil numa região rural da França. O filme mostra o período de formação e de aquisição de conhecimentos dessas crianças, além de seu ambiente familiar e sua convivência com os demais colegas.
Devo assistir porque… este é um belo filme sobre aprendizagem e respeito e por homenagear um período tão marcante e importante pra todo mundo, quem não se lembra como era ir pra escola nessa idade? Das dificuldades de deixar a casa pela primeira vez pra ir pra escola? E além de tudo, o fim do documentário é emocionante.
Título Original: Être et Avoir
Diretor: Nicholas Philibert
O Rolo Compressor e o Violinista (1960)
Sasha é um garoto apaixonado por seu violino e que foge das outras crianças que o zombam e perseguem pelo seu apreço ao instrumento. Sergei opera um rolo compressor e defende Sasha de uma das perseguições dos demais garotos. Surge então uma amizade improvável entre um pequeno violinista e um truculento operador de um rolo compressor.
Devo assistir porque… este média-metragem foi o Trabalho de Conclusão de Curso de Andrei Tarkosvki na faculdade de cinema e desde já mostrava alguns dos traços estilísticos e a poesia que permeariam toda sua genial obra.
Título Original: Katok í Skripka
Diretor: Andrei Tarkovski
Ninguém Pode Saber (2004)
Quatro crianças mudam-se com a mãe para um pequeno apartamento em Tóquio. Apenas a mãe e o filho mais velho são vistos, ninguém pode saber da existência das outras três crianças no apartamento (elas são levadas dentro de malas para o novo lar), pois podem ser despejados caso descubram. A mãe, então, os deixa e o filho mais velho, de apenas 12 anos, passa a cuidar dos irmãos. As coisas ainda vão relativamente bem enquanto a mãe envia dinheiro, mas após abandoná-los completamente a situação torna-se dramática.
Devo assistir porque… difícil completar essa frase. Só assista se você estiver muito de bem com a vida, porque esse filme é devastador. Sério, dá um nó na garganta e ele te persegue por muito tempo. E você fica ainda mais acabado quando descobre que é baseado numa história verídica. Ninguém Pode Saber foi indicado à Palm D’Or, mas perdeu para o excelente, não melhor, A Criança. O garoto que interpreta o irmão mais velho, de apenas 12 anos, ganhou o prêmio em Cannes de melhor ator.
Título Original: Dare Mo Shiranai
Diretor: Hirokazu Koreeda
Cinema Paradiso (1988)
Toto é um cineasta bem sucedido que recebe um telefonema da mãe avisando que Alfredo morreu. Alfredo era o projecionista do cinema da cidade onde Toto cresceu, o Cinema Paradiso, e com quem criou uma inusitada amizade. Ele retorna ao local onde aprendeu a amar o cinema e relembra sua vida na cidade.
Devo assitir porque… “Alfredo, va fan culo!”
Título Original: Cinema Paradiso
Diretor: Giuseppe Tornatore
Pecado da carne

O cinema sempre foi meio para abordar assuntos controversos e as produções que seguem estes caminhos se destacam por sua ousadia, porém a polêmica de tais filmes não é garantia de qualidade, nem de uma história bem contada. Pecado da Carne é um desses filmes que se constróem sobre um tema considerado tabu e o faz de maneira eficaz, sem se perder ou banalizar algo tão sério. Em seu longa de estreia, o cineasta Haim Tabakman invade uma área delicada e evidencia uma relação que quase sempre é encoberta ou dissipada.
A trama trata de uma forte paixão homossexual entre dois judeus numa comunidade ortodoxa de Jerusalém. Aaron Fleischman possui um açougue kosher e é aí que conhece Ezri, um jovem vindo de outra cidade à procura de uma yeshivá (escola onde se estuda o Torá), que adentra o local para fugir da chuva que cai e fazer um telefonema. Aaron oferece um emprego a Ezri como ajudante do açougue e o andar de cima do estabelecimento para a estadia temporária do jovem, enquanto este não encontrar sua yeshivá. Começa então a amizade que logo se transforma em paixão.
A relação escondida, proibida, entre os dois se inicia após Aaron relutar num primeiro momento. Dizia que era uma prova de Deus, que Ezri contornaria seu desejo para o engrandecimento do espírito, que a luxúria serviria para alcançar a catarse da alma, mas depois é o próprio Aaron quem não controla seus impulsos e investe no jovem solitário. O açougueiro, apesar de casado e pai de família, é uma pessoa triste, que leva uma vida vazia; Ezri é só, rejeitado e desamparado por seus desejos irem contra os ensinamentos de sua crença.
A afetuosidade entre os dois logo é percebida por alguns da comunidade, que inclusive descobrem o passado de Ezri, o qual havia sido expulso de outras yeshivás por seu comportamento “inadequado”. A vida de todos que habitam o bairro é pautada irrestritamente nos ensinamentos do Torá e o relacionamento entre dois homens é algo impensável, inconcebível, um pecado que prejudicaria, corromperia a sociedade em que vivem e, sobretudo, as crianças. Sob tal pretexto dos judeus mais ortodoxos (e, porque não, preconceituosos) da comunidade, Aaron passa a ser perseguido e ameaçado; deve encerrar a relação pecaminosa para voltar a ser um cidadão virtuoso e expulsar Ezri do açougue e do bairro para que este não influencie as crianças que lá vivem. Apesar dos avisos, Aaron continua a relacionar-se com Ezri e se depara, então, com ameaças veladas, anônimas, mas diretas, como o folheto que anuncia que a carne que ali se consome é contaminada pelo pecado e pela lascívia ou as pedras que são arremessadas contra o açougue. Ele se vê numa situação insustentável, diz a Ezri que não podem continuar, que tem esposa e filhos, Ezri rebate afirmando que só tem a Aaron.
Como as ameaças não surtem efeito, os sujeitos mais incomodados com o relaciomento de Ezri e Aaron invadem o açougue para uma atitude definitiva, para forçar a expulsão do “jovem pecador” do bairro. Entretanto, o rabino intervem e os impede, mas cobra de Aaron uma solução para o problema, este, porém, se nega a deixar Ezri e declara que ele trouxe um novo significado a sua vida, mais que isso, a vontade de viver novamente. Agora, sem a proteção do rabino, a relação entre os dois fica vulnerável a vontade da comunidade.
O diretor Haim Tabakman engendra a narrativa sem tomar partido, apoiar ou criticar um lado ou outro, apenas expõe os fatos com acontecem. O filme não é surpreendente em momento algum, mas em um contexto de possibilidades tão reduzidas não há como ser, isso se quiser manter a verossimilhança do filme, é claro. Mas nada disso diminui a qualidade do longa israelense, a abordagem feita é segura, convincente e contundente, e traz à tona um tema que incomoda e que normalmente é ocultado.
Histórias de amor deste tipo parecem fadadas a escolhas brutas e dolorosas. Em O Segredo de Brokeback Mountain, lembrança inevitável ao se assistir Pecado da Carne, o ambiente pernicioso ao relacionamento era o de uma comunidade interiorana e tradicional dos EUA, repleta de camponeses, pastores e caubóis, como os personagens principais do filme; meio, inclusive, onde a virilidade é adjetivo indiscutível e a relação entre dois homens inadmissível. No filme de Ang Lee, a separação entre os protagonistas acontece, mas o fim é trágico para aquele que não abdica de seus desejos e “confronta”, assim, a sociedade. Em Pecado da Carne, a questão do preconceito é aprofundada e ampliada, já que adquire contornos religiosos. Se o mundo dos caubóis não admite um relacionamento gay, imagina uma comunidade judaica ortodoxa. Desta forma, não é difícil prever que o final do longa não seja feliz para o casal. Num filme que retrata uma sociedade intrinsicamente ligada à sua religião, o desfecho da história é simbólico e demonstra como dogmas e doutrinas possuem forte poder sobre seus seguidores.
O pecado da luxúria, um banho de purificação; o desejo de viver, a catarse da alma; em um universo antitético com caminhos tão díspares e excludentes nenhuma escolha parece certa, confortável, feliz.
O ciclista

O cinema iraniano se tornou notável na década de 1990 com seus filmes de imenso valor humanista, rodados com inúmeras restrições técnicas e sempre reveladores das mazelas sociais do país. O Ciclista, filme de Mohsen Makhmalbaf, um dos diretores mais aclamados desta fase do cinema iraniano, é um exemplar desse cinema e precede a década em que o Irã se tornou internacionalmente reconhecido no universo cinematográfico.
Filmado em 1987, o longa retrata a difícil situação de Nasim, afegão desempregado que vive no Irã e tem a mulher doente à beira da morte. Os custos para o tratamento da esposa são altos demais para Nasim. Para salvá-la, ele parte em busca de um emprego, mas não o encontra. Em uma atitude desesperada pensa no suicídio, mas é impedido pelo filho, Jomeh. A alternativa encontrada por Nasim é aceitar uma proposta de um empresário – pedalar uma bicicleta ininterruptamente por sete dias para receber em troca o dinheiro, providencial para a sobrevivência da esposa. Ele, que fora campeão de ciclismo em seu país, topa tal desafio e inicia uma jornada de persistência.
O enredo simples é envolto pela situação do Irã à época, sobretudo do imigrante afegão, e expõe os estigmas de uma nação empobrecida e fragilizada. O desemprego e a miséria são destacados e em Nasim tomam forma aflitivamente. O protagonista do filme, assim como os demais afegãos, tem seu trabalhado desvalorizado e é relegado a subempregos. Ao procurar o hospital que pode curar sua mulher, a observa sufocante e ouve com tristeza os valores de sua internação – 1000 tomans a diária, 500 com desconto, 300 tomans o serviço, com os custos de exames e operação sendo cobrados separadamente. Ao procurar emprego, ele e outros tantos imigrantes se amontoam e disputam um trabalho que lhes pagará 50 tomans por dia. A condição deplorável do imigrante no Irã leva-o a tentativa tresloucada do suicídio e, em seguida, a se submeter aos caprichos de um empresário que explora sua indigência para ganhar dinheiro.
Ao iniciar sua trajetória, Nasim é acompanhado de perto pelo filho; um árbitro, que deve observar se o ciclista não está violando nenhuma regra; uma equipe de médicos e vários espectadores e curiosos. A força de vontade de Nasim cativa o público e inspira aos velhos e leprosos que o assistem e que, assim como ele, passam por muitas dificuldades. Além do pedalar incessante como metáfora da persistência humana, a jornada do ciclista também guarda críticas aos que detêm o poder no país. A tentativa de suborno do governo, que diz a Jomeh para oferecer dinheiro ao seu pai para que desista da prova é uma forma de evitar um fortalecimento do imigrante e do pobre no país.
Com uma história comovente sobre os limites morais e físicos e o desespero do ser humano, e utilizando-se de temas circulares (a arena de apresentação do espetáculo com a motocicleta, as rodas, o poço, o pedalar em círculos) para reforçar a representação do ciclo da existência, O Ciclista exibe de maneira singela, porém com profunda complexidade sócio-cultural um panorama das camadas mais desprivilegiadas de seu país. Evidenciando a contundência da miséria e do desemprego no Irã, Makhmalbaf expõe e critica a penúria dos menos favorecidos e encerra o filme com uma perspectiva incerta para estes, como sugere a cena final – ao término da prova, um jornalista pergunta a Nasim “o que é felicidade para você?”, o ciclista nada responde, apenas continua a pedalar.
E as listas continuam
Continuando com as listas, vou indicar agora os filmes que mais gosto e aqueles que repudio. A lista dos meus filmes favoritos é extensa, tive que reduzi-la a apenas cinco e deixei de fora grandes filmes como Ran, Os Incompreendidos, Vá e Veja, mas acho que a lista está bem representada. A lista de lixos cinematográficos também é grande, mas também citarei apenas cinco.
Cinco obras-primas
Persona: Sem palavras!
Persona (Persona, de Ingmar Bergman, 1966)
Persona é só o maior filme da história do cinema (nem gosto do filme, hein?…) Dirigido por Ingmar Bergman, fotografado por Sven Nykvist e com atuações viscerais de Liv Ullman e Bibi Andersson, precisa dizer mais alguma coisa? Nenhum outro filme aborda e questiona tão profundamente o conceito da identidade, as verdades e as máscaras do ser humano.
A Cor da Romã (Sayat Nova, de Sergei Paradjanov, 1968)
Este é um filme peculiar, tanto em sua estética quanto em sua narrativa. Através de cenas estáticas com imagens belíssimas, o filme conta a vida do poeta armênio Sayat Nova. Porém esta história não é contada da maneira que estamos acostumados a ver em filmes biográficos. Paradjanov o faz com sequências metafóricas, repletas de simbolismos e que traduzem não a vida em si do poeta, mas suas angústias e conflitos e que podem ser notadas em sua obra.
Close up (Nema-ye Nazdik, de Abbas Kiarostami, 1990)
Muitas pessoas torcem o nariz para o cinema iraniano, eu não sou uma dessas pessoas. Ao contrário, aprecio bastante os filmes que vem daquele país e um dos diretores que mais agrada é um iraniano, Abbas Kiarostami. Seus filmes são geniais, mostram os problemas da sociedade iraniana, mas que podem também ser ampliados, vistos como problemas do ser humano, e sempre com muita crítica, mas sem pedantismo. Dentre os filmes de Kiarostami que já pude ver, Close-up é sem dúvida meu favorito. Conta a história de um homem desempregado e cinéfilo que se passa por um famoso diretor do Irã, Mohsen Makhmalbaf, e convence uma família de classe média de que ele é o famoso diretor e que tem um projeto do qual gostaria que tal família fizesse parte. O filme, que se confunde entre documentário e ficção, possui, pra mim, uma das cenas mais emocionantes da história do cinema – o encontro entre o protagonista da história e o verdadeiro Mohsen Makhmalbaf.
Nostalgia (Nostalghia, de Andrei Tarkovski, 1983)
Penúltimo filme de Andrei Tarkovski, narra a trajetória de um poeta russo que vai a Itália pesquisar a vida de um outro artista russo que viveu por lá anteriormente. O filme é marcado pelo sentimento de nostalgia que toma o poeta ao chegar em terra estrangeira; e as memórias, as saudades, as fraquezas que isso pode acarretar. Acometido por uma crise espiritual e aterrorizado por lembranças de sua terra e sua família, o poeta segue seu destino pelo país desconhecido e encontra Domenico, um italiano “louco” desenganado com o rumo sombrio que segue a humanidade, ligada profundamente às raízes do passado e desunida, o que para Domenico acarretaria num fim devastador. No personagem Domenico, um aspecto que se repetiria no último filme do diretor, O Sacrifício, – um “louco” que decide tomar uma atitude extrema para alertar a todos sobre a apatia e a indiferença que consomem o ser humano e o impede de lutar por mudanças em uma sociedade perdida.
Era uma vez em Tóquio (Tokyo Monogatari, de Yasujiro Ozu, 1953)
Um casal de idosos que vive no interior do Japão vai a capital visitar os filhos. Ao chegar lá são recebidos com frieza e logo se tornam figuras indesejadas pelos próprios filhos e netos, a única que os recebe com hospitalidade é a nora, esposa do filho desaparecido na guerra. Um drama familiar comovente que retrata as mudanças na sociedade japonesa na primeira metade do século passado e as diferenças entre gerações.
Cinco lixos
Serendipity: sem comentários…
Escrito nas Estrelas (Serendipity, de Peter Chelsom, 2001)
Com esse nome não precisa dizer muita coisa, né? Até hoje não sei porque comecei a assistir este filme, mas eu sei porque parei de assisti-lo 10 minutos depois, porque é um lixo!
A Múmia (The mummy, de Stephen Sommers, 1999)
Não suporto este tipo de filme…
Watchmen (Watchmen, de Zack Snyder, 2009)
… nem este.
Sabor da Paixão (Woman on top, de Fina Torres, 2000)
Vergonha alheia da Penelope Cruz neste filme. Meu, como uma atriz dessa faz um filme desse?
Amor além da vida (What dreams may come de Vincent Ward, 1998)
Água-com-açúcar-da-pior-qualidade.
Depois de uma aula de Cinefilmismo
Depois de uma aula de Cinefilmismo (não me pergunte o que isso significa…) na faculdade onde cada aluno apresentou uma lista com os filmes que mais e menos gostava, eu e uns amigos decidimos fazer nossas listas também, mas de um jeito diferente. A ideia era fazer uma lista com os cinco filmes que gostamos, mas temos vergonha de admitir e mais cinco filmes que não gostamos, mas não dizemos nada por medo de sermos linchados… Foi difícil, muito difícil fazer as tais listas, mas vamos lá…
Cinco filmes que gosto, mas não admito
A Cor do Paraíso: filme comovente, mas ruim
Os Batutinhas (The Little Rascals, de Penelope Spheeris, 1994)
Vai, quem não gosta desse filme? Todo mundo já viu pelo menos umas cinco vezes… Ok, eu já vi pelo menos umas cinco vezes, tinha 7 anos e era meu filme preferido do Cinema em Casa (lembram?). Dá pra entender, né? hehe
Meu Cachorro Skip (My Dog Skip, de Jay Russell, 2000)
Pra quem não conhece, é um filme que conta a história do cachorro Skip… hahaha, óbvio! Mas então, sabe como é né, filme com um cachorrinho cativante, carismático que morre no final é emocionante, quem tem ou já teve ou gosta de cachorro, me entende. (aquele que procura uma justificativa pra falar que gostou do filme ruim… hahaha) Eu tinha colocado Marley e Eu tbm, mas percebi que não gosto do filme, na verdade só é triste pq o cachorro morre, mas o filme é uma droga, então mudei pelo que vem a seguir…
A Cor do Paraíso (Rangh-e-khoda, de Majid Majidi, 1999)
Nem tenho muito o que falar, o filme vai bem do começo até quase o fim; uma história emocionante, uma grande lição de vida, mas a cena final e o clima piegas que toma conta a partir de determinado momento comprometem a qualidade deste filme iraniano. É comovente, mas é ruim. Um filme igualmente comovente, mas de qualidade infinitamente superior é Filhos do Paraíso, do mesmo diretor, esse vale muitíssimo a pena ver.
Feliz Natal (Joyeux Noël, de Christian Carion, 2006)
Um filme francês com uma sinopse linda: O cessar-fogo na noite de Natal de 1914, em plena 1ª Guerra Mundial, faz com que soldados deixem suas trincheiras para confraternizar com o inimigo. Se eu não me engano foi baseado em fatos reais, atenção BASEADO, não quer dizer que tudo ocorreu como no filme, que, aliás, é cheio de inconsistências e pouco verossímil e por isso, ruim, mas q é bonito, apesar de tudo, por isso gostei, mas não admito.
Idiocracia (Idiocracy, de Mike Judge, 2006)
Antes de tudo tenho que dizer: o filme é bom, embora alguém possa dizer o contrário. Vão dizer que é ruim porque é uma daquelas comédias escrachadas, as quais eu não suporto por sinal, mas essa foi a proposta do filme para escancarar o processo de emburrecimento que o ser humano está imerso, segundo o autor do filme. Umas partes até são meios arrastadas, tipo a cena da reabilitação, mas outras são geniais, como a mudança no nome da lanchonete, logo no começo do filme. Também possui defeitos, mas que a gente releva pela boa história.
Agora a lista mais difícil…
Cinco filmes que não gosto e não admito
O Último Imperador: bonito, mas igualmente chato
O Último Imperador (The Last Emperor, de Bernardo Bertolucci, 1987)
Nem vou falar muito desse filme, porque ele não merece, é chatíssimo! Foram as 3horas mais longas da minha vida (ok, exagero…). É um dos grandes filmes de um diretor consagrado, mas pra mim é intragável.
Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, de Blake Edwards, 1961)
Filme clássico de Hollywood, tem a Audrey Hepburn, e vale a pena assistir o filme por ela, mas também é um filminho bem sem graça. É assistível, mas não me apraz.
Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, de Nicholas Ray, 1955)
Outro clássico hollywoodiano, com um dos ícones do cinema, James Dean, mas que também não me agradou. Vão falar da importância do filme, que ele é o retrato perfeito da juventude à época e blábláblá, mas mesmo assim, pra mim, não é um grande filme.
A Tortura do Silêncio (I Confess, de Alfred Hictchcok, 1953)
É um filme do Hitchcock ruim! Sim, isso mesmo, é um filme ruim do HITCHCOCK! Isso existe! Só “não admito” que não gosto porque é do Hitchcock, porque se fosse do Orson Welles, Elia Kazan, etc, não teria o menor problema em fazê-lo. (ñ que o Welles ou o Kazan sejam ruins, eles só não são um Hitchcock.)
Metropólis (Metropolis, de Fritz Lang, 1927)
O filme foi feito na década de 1920, ou seja, pra época era revolucionário. Tem uma das cenas inesquecíveis do cinema, na minha opinião, que é a da troca de turno dos funcionários. É um filme importante; discute, expõe a distinção de classes e as relações entre burguesia e proletariado. Entretanto, é também um dos filmes mais chatos da história do cinema. Assisti-lo é uma tortura!




